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Os ovos da reestruturação 07/04/1996

Luiz Paulo Vellozo Lucas
A Tribuna - 7/4/1996

A Páscoa de 1996 será inesquecível. O processo de liberação de preços dos combustíveis está sendo um dos maiores desafios profissionais que já enfrentei. Estive em alguns “- fronts” nada simples como as negociações do fim da reserva de mercado da informática e o processo de abertura comercial, que hoje parecem até simples perto da complexidade do quadro que estamos nos defrontando no setor de combustíveis.

Em 1989, uma crise de abastecimento de álcool confirmou para a população que o Proálcool já não possuía razão econômica. A partir daí a venda de carros a álcool caiu do pico de 96%, no auge do programa, para menos de 3% no ano passado. O petróleo voltou a der barato e o subsidio foi ficando cada vez mais pesado.

Em setembro de95, desequilibramos o frete da gasolina e do álcool, e os preços na bomba fizeram o álcool ainda menos atrativo. O rombo financeiro do programa e engessamento do controle de preços são os culpados pelo aumento de 10% que o governo foi o brigado a dar. Dar o aumento foi ruim mas não dar seria pior.

Como o setor encontra-se desequilibrado estruturalmente pelos subsídios e pelo controle de preços, para não falar do monopólio da Petrobrás, nós condicionamos a concessão do aumento a medidas concretas de reestruturação, que eliminem as causas do problema e as irracionalidades do atual modelo.

As confusões dos primeiros dias foram um preço barato que pagamos pelo avanço que fizemos. Os combustíveis estavam em regime de preços tabelados há 59 anos. O governo dizia quanto deveria ser o salário dos frentistas, o lucro das distribuidoras e dos pontos, enfim, era o gerente do cartel.

A liberação dos preços e a competição entre os postos, e principalmente entre as distribuidoras, vão fazer o preço baixar par o consumidor. Além disso, em janeiro acaba o subsidio do álcool. Ou bem o Congresso Nacional e os estados que produzem álcool arranjam uma maneira de financiar o subsidio, de maneira explicita, oi os preços do álcool forçarão uma reconversão da frota a gasolina.

Como adicionamos 22% de álcool na gasolina, mesmo que não haja mais carro à álcool, o Proálcool pode voltar a ser econômico. O álcool anidro é excelente aditivo com função de oxigenação e não precisa de subsidio. A chamada “frota verde” movida à álcool só será viável nos estados que aceirarem a cobrança do “imposto ambiental” para subsidiar o álcool hidratado. Naturalmente e os estados produtores farão força para manter o uso do álcool hidratado.

A liberação de preços e a reestruturação do Proálcool vão beneficiar o consumidor que paga sem saber as irracionalidades do atual modelo. O tabelamento acomoda o consumidor e anula seu poder de influir na remuneração dos agentes que atuam no lado da oferta. A concorrência vai dar um pouco de trabalho ao consumidor mas vai beneficia-lo.

As mudanças, quanto mais profundas, mais confusão causam. Não tenho vergonha de assumir erros de operação e problemas quando está em jogo uma transformação histórica na direção correta. Os próximos dias vão confirmar que, na área de combustíveis, o Brasil está preparado para enfrentar as tarefas da reestruturação com vistas a eliminação das irracionalidades.

Vamos nos lembrar que o pãozinho e o frango, assim como todos os produtos que compõem a cesta básica têm preços livres que estão estáveis, variando para cima e para baixo de acordo com a oferta e a demanda, demonstrando o funcionalmente saudável do mercado concorrencial, única maneira conhecida de encontrar preço justo.

Os ovos quebrados são rotina na vida dos profissionais de fazer omeletes.

Boa Páscoa!

Tags: Economia
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