Luiz Paulo Vellozo Lucas
A Gazeta - 24/5/1993
Toda unanimidade é burra, dizia o grande Nelson Rodrigues. Não existe ninguém tão bom que não mereça reparos ou tão ruim que não possua qualidades. Assim são os governos e assim são as oposições.
Itamar Franco acertou com Fernando Henrique Cardoso. A marca da sabedoria está na grandeza com que o novo ministro trata os conflitos, aparentemente insuperáveis, de nossa combalidade e superinflácionária economia. O desespero é mau conselheiro e não deve ser confundido com importância ou prioridade. Fernando Henrique passa, ao mesmo tempo, calma e pressa. Só os sábios possuem essa fórmula.
Já em nosso estado o processo contra governador Albuíno segue caminho oposto. A insatisfação e a revolta contra as condições de vida da população são poderosos trunfos políticos e a disputa pela primazia de ser o mais revoltado contra a situação de penúria do povo acaba ocupando o espaço que deveria ser reservado à busca de soluções.
O governo Albuíno tem muitos defeitos. Encontrá-los é a principal responsabilidade da oposição e solucioná-los é obrigação de todos.
Quando o processo político afasta-se da saudável discussão sobre as alternativas para os problemas da população, ele perde qualidade e se concentra em disputas de poder paroquiais.
O processo de apuração de um suposto crime de responsabilidade contra o Governo de Albuíno é, claramente, uma manobra irresponsável que desvia a atenção dos principais problemas do estado, falseia suas causas e descansa quanto às tarefas necessárias à sua superação.
Ninguém precisa gostar de Albuíno ou de seu governo para se opor e se revoltar quanto ao processo de impeachment que quatro deputados movem, com o auxílio de alguns dirigentes sindicais mal informados e ou mal intencionados.
Collor foi “impichado” com batom na cueca e provas mais que irrefutáveis de mentira pública. E fazer pouco caso da inteligência do povo capixaba, querer dar o mesmo tratamento a Albuíno – com todos seus eventuais defeitos e problemas – que foi conferido a Collor e seus comparsas.
A lei é para ser cumprida e os poderes Legislativo e Judiciário poderiam se preocupar, por exemplo, com a isonomia salarial determinada na Constituição e claramente desrespeitada na política salarial independente destes poderes. Por que esse tipo de desrespeito à lei não é fiscalizado?
Coisas como esse processo contra Albuíno desmoralizam a democracia e suas instituições e fazem com que projetos autoritários cresçam na sociedade. Para que servem deputados e juízes numa ditadura?
O Estado precisa da oposição para abrir seus olhos quanto aos erros e omissões do Governo. Esse papel é insubstituível.
Vamos prestigiar as importâncias em lugar das conveniências. A responsabilidade de enfrentar as chagas sociais, a miséria e a ignorância é de todos que, de alguma maneira, são identificados como instrumentos de construção de um futuro melhor.
Com a indústria da seca, denunciada por Ciro Gomes, revolta-nos mais que o sofrimento do povo as manobras visando a sua exploração.
Enquanto a pobreza tiver dono ela não será erradicada.