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Mais um delírio 29/05/2008

Luiz Paulo Vellozo Lucas

A Gazeta - 29/05/2008

Amoeda é o tijolo da economia de mercado, se quisermos uma comparação de engenheiro. A moeda é a célula-tronco da economia de mercado, se a comparação for de médico. As funções clássicas da moeda são: unidade de referência da estrutura de preços relativos, meio de pagamento para a realização de transações e reserva temporal de valor ou riqueza.

Depois da "Teoria Geral", de John Maynard Keynes, a função da moeda passou a ser compreendida numa dimensão muito maior, quando se descobriu sua principal propriedade, que é a de ser o núcleo vital da capacidade de gerar riqueza de uma economia nacional.

A qualidade da moeda de um país espelha e revela as principais características de sua estrutura produtiva, comercial, financeira e de governo. A maior cédula do Zimbabwe é de 10 milhões de dólares zimbabweanos, que equivalia, até o fim de abril, a 20 cents de dólar norte-americano. A inflação lá é de 100.000% ao ano. Portanto, é um país sem moeda, o que reflete uma economia primitiva e muito, muito pobre.

Na Conferência Monetária Internacional de Bretton Woods de 1944, depois do fim da Segunda Guerra Mundial, as nações do mundo estabeleceram as regras do jogo da economia mundial. Lord Keynes, representando a Inglaterra, queria uma moeda e um Banco Central mundiais. No entanto, prevaleceu a ortodoxia do padrão ouro-dólar, com os EUA se comprometendo a assegurar a conversibilidade do dólar norte-americano com o ouro, de modo que qualquer moeda nacional, convertida em dólar, pudesse ser, indiretamente, também lastreada em ouro.

Em 1971, os EUA deixaram de cumprir o prometido em Bretton Woods e muitos previram o colapso da economia mundial. O padrão-ouro, ainda que indireto, não existia mais. As moedas agora estariam lastreadas e valeriam o que elas pudessem comprar. Passaram a ser apenas um "papel pintado", ancorado em expectativas.

O Brasil possui moeda estável há apenas 14 anos. Apesar de comemorar e alardear como de sua autoria o salto extraordinário que a economia brasileira deu neste período, o PT e o governo Lula seguem afirmando que seu principal inimigo é o "projeto neoliberal". Isso está concretizado em discursos, ações e inações da "companheirada" que inibe o avanço da edificação de uma economia de mercado sólida, competitiva e integrada ao mundo globalizado.

O Lulopetismo alimenta e agrava a obesidade mórbida do Estado e a inépcia governamental, e delas se alimenta, reforçando o caráter patrimonial e oportunista das relações, das mais diversas naturezas, com o Estado brasileiro.

Concluindo, o mundo está mais perto da moeda mundial que a América do Sul de uma moeda do continente. Esse desejo presidencial delirante e extemporâneo exige a convergência de regimes fiscais e cambiais entre os países, tarefa, essa, que não se viabilizará nos próximos dez ou quinze anos. Num continente ainda recheado de lideranças populistas, fanfarrões e inconseqüentes, a nova moeda só poderia ter um nome: merreca!

Luiz Paulo Vellozo Lucas é deputado federal pelo PSDB/ES.

 

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