Luiz Paulo Vellozo Lucas
A Gazeta - 22/3/2007
Quitéria Vellozo Carneiro da Cunha, minha tia-avó, filha de Thiers Vellozo, fundador de A Gazeta, tinha a inteligência e o senso crítico do meu bisavô. Coisas erradas, inúteis, aborrecidas, desperdício de tempo, dinheiro ou paciência ela condenava em rito sumário: “Besteira, besta e abestalhada”. O governo do PT quer criar uma rede de rádio e TV estatal, ou pública, como eles preferem. Se Vó Quitéria fosse viva, haveria de concordar comigo. É besteira, besta e abestalhada.
Não sou contra que existam redes de comunicação estatais. No plenário da Câmara, os deputados petistas ficam nos lembrando da BBC inglesa e da RAI italiana. São bons exemplos, sem dúvida. Penso que o Estado deve fazer o que é preciso para enfrentar os desafios do país e os problemas da população. Nem o setor privado é monopolista da eficiência e do livre acesso, nem o Estado é dono do patriotismo e único guardião do interesse público. A verdade a gente só encontra examinando as circunstâncias concretas.
No caso do Brasil, existe um dinâmico setor privado na indústria das comunicações. Nem o mais fervoroso privatista vai dizer que o setor está funcionando como um mercado perfeito, onde a lei da oferta e da procura orienta automaticamente o bem-estar coletivo. Por outro, será que a presença do Estado como empresa é o caminho para melhorar a indústria da imprensa e das comunicações no país?
Minha resposta é um duplo não! Ainda que o dinheiro público fosse o remédio adequado para os males da nossa indústria de comunicações, penso que outras prioridades para o investimento público na segurança, educação, saúde e infra-estrutura deveriam tomar seu lugar.
Quanto mais atrasado o Estado da federação, mais dependente do dinheiro público é a imprensa local. Nesses rincões, quase sempre os grupos políticos se estruturam em verdadeiras holdings de poder controlando empreiteiras, empresas de comunicação, partidos políticos, até padarias e locadoras de vídeo. Como uma estatal das comunicações seria melhor?
Com essa agenda, o PT confirma que sua opção pela economia de mercado é uma escolha envergonhada, que não se importa em pagar o preço em forma de inversões de prioridade e gastança perdulária, apenas para fustigar adversários ideológicos.